Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010

Nem o cravo brigou com a rosa, como não sei qual o pente que penteia a nêga



O Cravo Não Brigou com a Rosa
Roberto Rabat Chame (Jornalista)


Em homenagem ao excelemte artigo, a música com Elis Regina
Nêga do Cabelo Duro, Qual é o Pente que te Penteia.


 
Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto. Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo – o homem – e a rosa – a mulher – estimula a violência entre os casais. Na nova letra “o cravo encontrou a rosa/ debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada”.

Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro?

É Villa Lobos, cacete!

Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas. A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/ Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.

Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.

Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. Ninguém mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.

Dia desses alguém [não me lembro exatamente quem se saiu com essa e não procurei a referência no meu babalorixá virtual, Pai Google da Aruanda] foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, coisa de viado. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como coisa de viado. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. Bicha louca, diria o velho.  (Imagina, então, se ele soubesse que seu filho e netos participaram de uma passeata 'gay'!)

Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado ? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.

Daqui a pouco só chamaremos o anão – o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil – de deficiente vertical . O crioulo – vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) – só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo – o famoso branco azedo ou Omo total – é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente. A mulher feia – aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno – é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo – outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão – é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.

Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais… Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.


O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra putaqueopariu e o centroavante pereba tomar no olho do cu, cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.

Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova, aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá, já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a “melhor idade”.

Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto.

Muito engraçado, ressalvado o cochilo do “copy desk” em deixar passar bujão ao invés do correto, botijão. Roberto Rabat Chame (Jornalista)

*
letra da música, abaixo, mostra o significado que ela tem.  Será que podem taxá-la como precentuosa?

Vamos parar com essa idiotice  - fantasiada de direitos humanos  - que não funciona principalmente na hora de impor a censura. Ora, tenha dó!  A

Nega do cabelo duro
Qual é o pente que te penteia ?
Qual é o pente que te penteia ?

Qual é o pente que te penteia ?


Quando tu entras na roda

O teu corpo serpenteia

Quando tu entra na roda

Tem um "q" que me tonteia

Nega do cabelo duro

Qual é o pente que te penteia ?

Qual é o pente que te penteia ?

Qual é o pente que te penteia ?

Ondulado e permanente

teu cabelo é de sereia

Misampli a ferro e fogo

Não desmancha nem na areia

Nega do cabelo duro

Qual é o pente que te penteia ?

Qual é o pente que te penteia ?

Qual é o pente que te penteia ?













publicado por puteiro-nacional às 06:58
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16 comentários:
De Mr. Nemo a 10 de Novembro de 2010 às 07:26
Jurema,

Há cerca de 19 anos atrás, quando minha filha contava com 4 anos, já se cantava a "nova versão" de "Atirei o pau no gato". Esse processo vem de décadas, nós é que fomos deixando passar...
Só para matar a curiosidade, para quem não conhece, a cantiga virou:
"Não atire o pau no gato
Porque isso não se faz
O gatinho é nosso amigo
Não devemos maltratar os animais!"


De Anónimo a 10 de Novembro de 2010 às 08:46
Chiste, diz:

Jú tentei colocar o pequeno discurso de Bil Gattes mas não consegui.


De Anónimo a 10 de Novembro de 2010 às 08:47
Chiste, diz:

Esqueça agora ele esta postado


De Jurema Cappelletti a 10 de Novembro de 2010 às 09:17
Chiste, o discurso que tentou colocar é vídeo? Me diz o que é para eu tentar, como o assunto, por exemplo. Às vezes o Google faz milagres.


De Jurema Cappelletti a 10 de Novembro de 2010 às 09:37
Nemo, tenho minhas dúvidas sobre essa forma de cuidar tanto de nossa fragilidade. Isso me lembra o caso do filho de uma amiga. Ele foi criado 'numa redoma', sem nada que o pudesse atingir. Quando pela primeira vez ouviu um não (da meninma que queria namorar) tentou o suicídio. Um "meio" suicídio. Meus amigos ficaram com ódio mortal da menina! Deviam é ter dado uns petelecos nele.

Fora isso, posso considerar o meu caso (perdoe, porque pelo que vou dizer). Perdi meu pai aos três anos e minha mãe aos quinze. Por pior que seja, isso me ensinou a me virar. Não existe nada pior do que a fragilidadade.

Não é apenas uma musiquinha que vai transformar uma criança num torturador de animais. Se fosse assim, eu já teria matado os gatos da minha cunhada.

Ju


De Ajuricaba a 10 de Novembro de 2010 às 09:41
Assim como Mr. Nemo, só conhecia a versão politicamente correta para o Atirei o Pau no Gato ( Prá mim não vai mudar). Agradeço o acréscimo de novas benfeitorias culturais.
Zé Zuiz...


De Mr. Nemo a 10 de Novembro de 2010 às 14:27
Você tem toda razão Jurema.
Não pretendia defender o "politicamente correto" que, diga-se de passagem, me enoja. Antes, quis salientar que esse é um processo lento, que vem de décadas. Nós é que não estávamos enxergando e, se estávamos, não agimos.


De Marc a 10 de Novembro de 2010 às 14:37
Quem disse que ecologia não é coisa de viado? Cabe a nós proteger os viados campeiros para que não se acabem nas balas dos caçadores; quanto aos outros... sem preconceito desde que não forcem a barra do jeito que estão forçando.


De Poesia em Movimento a 10 de Novembro de 2010 às 15:15
(clap) (clap)(clap) (clap)(clap) (clap)
Muito bom o Texto.
Jurema, era disso que falava com voce.
Voce é genial, e seu blog é muito bom...
Esqueçamos política (vingativamente) vamos criar uma comunidade onde a democracia reinará, e que o objetivo comum seja buscar soluções sociais.

Adorei o Artigo.

Zilhões de beijos e minhas
Sinceras considerações.
Anderson Leite Lima
Artigo Crânicas e Memoriais.


De Anónimo a 11 de Novembro de 2010 às 04:44
Chiste, repassando:
Aqui estão alguns conselhos que Bill Gates ditou em uma escola secundária sobre 11 coisas que estudantes não aprenderiam na escola.
Ele fala sobre como a “política educacional de vida fácil para as crianças” tem criado uma geração sem conceito da realidade, e como esta política tem levado as pessoas a falharem em suas vidas posteriores a escola.

Dica 1: A vida não é fácil - acostume-se com isso.

DiGa 2: O mundo não está preocupado com a sua auto-estima. O mundo espera que você faça alguma coisa útil por ele ANTES de sentir-se bem com você mesmo.

Dica 3: Você não ganhará R$ 20.000 por mês assim que sair da escola e
você não será vice-presidente de uma empresa com carro e telefone a
disposição antes que você tenha conseguido comprar seu próprio carro e
telefone.

Dica 4: Se você acha seu professor rude, espere até ter um Chefe. Ele terá pena de você.

Dica 5: Vender jornal velho ou trabalhar durante as férias não está abaixo da sua posição social. Seus avós tem uma palavra diferente para isso: eles chamam de oportunidade.

Dica 6: Se você fracassar, não é culpa de seus pais, então não lamente seus erros, aprenda com eles.

Dica 7: Antes de você nascer, seus pais não eram tão críticos como agora. Eles só ficaram assim por pagar as suas contas, lavar suas roupas e ouvir você dizer que eles são “ridículos”. Então antes de salvar o planeta para a próxima geração querendo consertar os erros dos seus pais, tente limpar seu próprio quarto.

Dica 8: Sua escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim. Em algumas escolas você não repete mais de ano e tem quantas chances precisar até acertar. Isto não parece com absolutamente NADA na vida real. Se pisar na bola, está despedido, RUA!!!!! Faça certo da primeira vez.

Dica 9: A vida não é dividida em sementes. Você não terá sempre os verões livres e é pouco provável que outros empregados o ajudem a cumprir suas tarefas no fim de cada período.

Dica 10: Televisão NAO É vida real. Na vida real, as pessoas têm que deixar o barzinho ou a boate e ir trabalhar.

Dica 11: Seja legal com os CDFs (aqueles estudantes que os demais julgam que são uns babacas). Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar PARA um deles.


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